2013/03/23

Pedro Bidarra: cheira a fim de regime

«É um cheiro que está no ar. Este regime, que se enreda em jogos e salamaleques homeostáticos (em jogos do mais do mesmo) pelos salões desta falida democracia, despertou em mim memórias “olfactivas” que me recordam o outro, o que eu vi cair era ainda adolescente. Na altura, se o meu nariz não me engana, cheirava mal: cheirava a mofo. E o regime de então morreu.
 
Agora também me cheira a mofo. É o cheiro do fim.
 
Há uns meses assisti ao concerto de comemoração dos 40 anos do Expresso, que nasceu quando o anterior regime estava a morrer e fez 40 quando este tem os mesmíssimos sintomas do outro: incapacidade de os seus actores mudarem os papéis que desempenharam até hoje e nos trouxeram até aqui. No concerto ouviram-se as canções que marcaram estes anos. Começou nas do PREC, passou pelas do optimismo dos anos 80, depois pelas dos anos 90, já em tom de ressaca, e acabou com o Boss AC a cantar o É sexta-feira.
 
No auditório estavam representantes do regime: políticos, banqueiros, CEO famosos, jornalistas, empresários. O Boss AC cantou coisas como Os cotas já me querem ver pelas costas” ou Os bancos só emprestam a quem não precisa” ou Eles enterram o país”; e “eles” bateram palmas e pediram um encore.
 
O É sexta-feira lembrou-me então a Tourada que o Tordo cantou no fim do outro regime. E veio-me à memória o cheiro a mofo.
 
Neste regime democrático vimos o país sair miséria, vimo-lo desenvolver-se e vimos gerações, pelo menos duas, crescer em democracia; como se falar livremente, estudar quase de borla, ir ao hospital e ser atendido por bons médicos, trabalhar e ganhar dinheiro, e fazer parte do mundo (pela viagem e pelo poliglotismo de que somos capazes) fossem coisas normais. Como se viver em paz, na Europa, fosse uma coisa normal. Não é. Diz a História a quem se dá ao trabalho de a ler.
 
O cheiro a fim, sinto-o hoje quando oiço a bafienta Grândola que me soa ao Ó tempo volta pra trás. Ou quando oiço falar nos partidos do “arco-da-governação” e me lembro da União Nacional e da corja clientelar que por lá parasitava: “arco-da-governação” o tanas, é o “arco-da-velha”. Ou quando oiço o agitprop da esquerda a mentir ao povo que há dinheiro de borla.
 
Durante a minha adolescência ouvi muitas vezes a referência aos 48 anos de obscurantismo. Não era o obscurantismo que me fazia confusão – sendo eu adolescente, o obscurantismo era um lugar romântico, um sítio onde se lutava pela luz. O que me fazia confusão eram os 48 anos. Parecia-me uma eternidade. Afinal, não tarda serão 40 deste regime. De acordo com o que é normal na vida dos regimes em Portugal, está pronto a acabar. Pelo menos os sinais estão por aqui todos. Cá e lá fora, na Europa, que também cheira, insuportavelmente, a fim de regime. No caso, ao fim da paz.»

[Pedro Bidarra in Dinheiro Vivo, ontem]
 

2013/03/02

Clara Ferreira Alves: la dolce vita em Erlangen

«A Itália é gloriosamente ingovernável. Terra do Ferrari e do Lamborghini Aventador (talvez o carro mais demente do mundo)

NÃO SE PODE NÃO AMAR A ITÁLIA, e não por ser um dos raros países que têm uma admiração de chofer de táxi pelos portugueses, ah, fare il portoghese, ou seja, entrar sem pagar, embora tenham sido os italianos a dar a banhada! Ficou-nos a reputação. Desde a famosa embaixada de D. Manuel que eles nos tomam por notáveis exibicionistas. Éramos grandes, nesse tempo. Dávamos conselhos impe­riais ao Papa Leão X (Papa, exatamente, uma figura entretanto caída em declínio, porque o Vaticano devia ser na Noruega e não em Roma, tal como o nosso Antó­nio Silva dizia num filme português ao abrir a sua janela na Costa do Castelo: "Aqui é que devia ser o Estoril!"). Era a Leão X que se dirigia o fausto da embai­xada, derramando exotismo e grandeza pelas vielas romanas e dando a Dürer, o alemão (já lá iremos, aos alemães), um rinoceronte para ele desenhar sem o ter visto (o rinoceronte foi de Lisboa e afogou-se na costa italiana, um azar. O segundo rinoceronte era de D. Sebastião e o Filipe II, o filho de Carlos V casado com Isabel de Portugal, ficou com ele e com Portugal, um azar). Se a Itália não fosse a Itália não tínhamos Berlusconi, e se não tivéssemos Berlusconi, ou o palhaço Beppe Grillo, não tínhamos Fellini nem Roberto Benigni, para ser­mos benignos. O génio italiano é o da trapalhice numa escala cosmicamente cósmica. Leiam o Italo Calvino. Tudo é possível. Até estes resultados eleitorais. Os alemães ficam com os cabelos em pé. Um grande silêncio cai sobre Berlim. Nada de pauladas. Isso é para os lombos de mulas mansas e burros de nora, como os nossos. A Itália é gloriosamente ingo­vernável. Terra do Ferrari e do Lambor­ghini Aventador (talvez o carro mais demente do mundo). Terra de Prada e Armani. Terra de Visconti e Pasolini. Terra de Césares (gays). E terra de Michelangelo e Leonardo, para não falar dos outros. Terra de Papas, para graça e desgraça dos Papas. Quem é que se porta bem em Roma? Há tempos, tive de interromper umas férias em Florença e Siena e apanhar o comboio da noite para Munique e daí para Nuremberga e de Nuremberga para Erlangen. O coração da Baviera. E, já que falamos nisso, o coração do nazismo. Ir diretamente do Duomo de Siena e da Cúpula de Brunelleschi, para não falar do David e dos outros, para o estádio de Albert Speer é uma experiência terminal. Ficamos a perceber os desaguisados da Europa desunida. Não somos alemães e somos pobres. Scientifico, no?, como dizia o grande Totó aos seus ladrões em "I Soliti Ignoti". Em Erlangen, aboletada num hotel com bircher müesli, tinha de ir todos os dias ao hospital. Não era agradável mas o médi­co alemão era o salvador e um formidá­vel médico. Não dava analgésicos, "a dor aguenta-se". Um dia cheguei às 7h05 em vez das 7h, da matina, fui punida e aten­dida no fim. Entardeci no banco. Quando tinha de fazer horas ia num Fiat 500 alugado (saudades de Itália) para Nurem­berga, ver o tribunal e o estádio do Speer (outra vez) e a casa de Dürer e os mu­seus cheios de Dürer (outra vez). Por ali anda o nosso rinoceronte, o da portoghesa, todo composto. Às 5 da tarde de domingo, em Nuremberga, fecha tudo, às 6 é como se a bomba de neutrões tivesse pulverizado a população com exceção dos turcos. Não há onde jantar. Em agosto. E em setembro. E em outu­bro. Se está tudo fechado em Nurember­ga, em Erlangen, uma cidade universitá­ria com uma das mais importantes universidades e talvez a melhor faculda­de de medicina da Alemanha (eu sei), uma cidade com estudantes, e com a Siemens, se falha a hora do jantar cedi­nho come-se no McDonald's da estação. Ou come-se um kebab deprimido à luz do néon. Erlangen é um largo desolado. Tem praças de uma beleza esplendorosa que dariam para mil esplanadas e a música da vida e tudo o que vibrava era um bar de tapas numa rua lateral, alusi­vo ao Mediterrâneo, onde se bebericava ao som de uma espanholada. As tapas eram um ersatz. Os alemães, simplesmente, não têm jeito para viver. A dolce vita dá cabo deles. Não troco a noite de Nápoles por um serão em Munique. Não troco um penne por um bratwurst. Nem os telhados de Siena pelo castelo de Würzburg. Entra--se numa igreja alemã (a Baviera é católi­ca, terra do pobre Bento XVI, um alemão vencido pela decadência romana), e percebe-se o sofrimento, a expiação, o sacrifício como templo da vida. Os após­tolos andam armados. Entra-se numa igreja italiana e vê-se o deboche como suprema representação da vida na arte. Os alemães pensam que a dolce vita é um nome de um cocktail esquisi­to. O pior é que temos de viver todos juntos na Europa. Ou a Alemanha se habitua ao sul onde tanto gosta de se banhar ou desiste. Nunca seremos ale­mães. Somos uns trapalhões. Uns palhaços (pobres). Uns ladrões. Scientifico, no?»
 
[Clara Ferreira Alves in Expresso, hoje]