2011/09/24
Esta semana arrumaram as botas
Cesária Évora, por estar velha e doente; Os R.E.M., por concordarem que já não vale a pena.
2011/09/19
My mother was of the sky. My father was of the earth. But I am of the universe *
* Yes Blues: The Beatles
Com base numa série de 600 fotografias disponíbilizadas online, no The Gateway To Astronaut Photography of Earth, e com recurso à ferramenta de captura e edição de vídeo de código aberto VirtualDub, o professor de ciências James Drake montou este vídeo de uma noite na terra, tal como se pôde observar da Estação Espacial Internacional, enquanto esta sobrevoou o continente americano.
[youtube.com/social/blog/universetoday]
[youtube.com/social/blog/universetoday]
2011/09/17
É um PREC, mas chamaram-lhe PREMAC
Plano de Redução e Melhoria da Administração Central do Estado
[portugal.gov.pt]
Atualização (quanta honra, Sr. Ministro)
[portugal.gov.pt]
Atualização (quanta honra, Sr. Ministro)
2011/09/11
Foi há dez anos, que 19 membros da Al-Qaeda sequestraram quatro aviões comerciais em território americano, com o intuito de usar as aeronaves como projéteis em missões suicidas. Dois dos aviões foram lançados contra as duas torres gémeas do World Trade Center de Nova York (complexo comercial económico e financeiro), que se desmoronaram ao cabo de duas horas; o terceiro colidiu com a sede do Pentágono (departamento de defesa dos estados unidos), no estado da Virginia; o quarto avião, acabou por se despenhar num campo, alegadamente, após os passageiros a bordo terem oferecido resistência aos piratas do ar.
Em consequência dos ataques de 11 de Setembro de 2001, milhares perderam a vida dentro e fora dos EUA. Gastaram-se biliões de dólares a reconstruir, e triliões a fazer a guerra, sob a égide da ONU e com o apoio logistico da NATO. O regime Taliban foi deposto, mas o Afeganistão continua ocupado. Bin Laden está morto, porém, o seu legado perdura. Os norte-americanos passaram a viver mais inseguros e ansiosos, e o preconceito contra o Islão ganhou terreno no Ocidente. Também na velha Europa aprendemos a olhar de viés para silhuetas muçulmanas, e a conceção multiculturalista está longe de ser consensual. Recordem-se, a propósito, os ideais político-sociais de Geert Wilders, a controvérsia sobre os minaretes na Suiça, ou os acontecimentos de 22 de Julho de 2011 protagonizados por Anders Breivik. Está bom de ver que o terrorismo, esse, continuará a ser uma ameaça global.
Em consequência dos ataques de 11 de Setembro de 2001, milhares perderam a vida dentro e fora dos EUA. Gastaram-se biliões de dólares a reconstruir, e triliões a fazer a guerra, sob a égide da ONU e com o apoio logistico da NATO. O regime Taliban foi deposto, mas o Afeganistão continua ocupado. Bin Laden está morto, porém, o seu legado perdura. Os norte-americanos passaram a viver mais inseguros e ansiosos, e o preconceito contra o Islão ganhou terreno no Ocidente. Também na velha Europa aprendemos a olhar de viés para silhuetas muçulmanas, e a conceção multiculturalista está longe de ser consensual. Recordem-se, a propósito, os ideais político-sociais de Geert Wilders, a controvérsia sobre os minaretes na Suiça, ou os acontecimentos de 22 de Julho de 2011 protagonizados por Anders Breivik. Está bom de ver que o terrorismo, esse, continuará a ser uma ameaça global.
2011/09/10
2011/08/31
Pensamento do dia #8
O zelo do moralista deriva invariavelmente daquilo que, não obstante defender, se reconhece a si mesmo incapaz de praticar. Razão pela qual vive inconfessadamente vergado à sua própria pequenez, cativo da nuvem de poeira com que procura - geralmente sem sucesso - mascarar-se.
2011/08/07
Os pobrezinhos
«Na minha família os animais domésticos não eram cães nem gatos nem pássaros; na minha família os animais domésticos eram pobres. Cada uma das minhas tias tinha o seu pobre, pessoal e intransmissível, que vinha a casa dos meus avós uma vez por semana buscar, com um sorriso agradecido, a ração de roupa e comida.
Os pobres, para além de serem obviamente pobres (de preferência descalços, para poderem ser calçados pelos donos; de preferência rotos, para poderem vestir camisas velhas que se salvavam, desse modo, de um destino natural de esfregões; de preferência doentes a fim de receberem uma embalagem de aspirina), deviam possuir outras características imprescindíveis: irem à missa, baptizarem os filhos, não andarem bêbedos, e sobretudo, manterem-se orgulhosamente fiéis a quem pertenciam. Parece que ainda estou a ver um homem de sumptuosos farrapos, parecido com o Tolstoi até na barba, responder, ofendido e soberbo, a uma prima distraída que insistia em oferecer-lhe uma camisola que nenhum de nós queria:
- Eu não sou o seu pobre; eu sou o pobre da minha Teresinha.
O plural de pobre não era «pobres». O plural de pobre era «esta gente». No Natal e na Páscoa as tias reuniam-se em bando, armadas de fatias de bolo-rei, saquinhos de amêndoas e outras delícias equivalentes, e deslocavam-se piedosamente ao sítio onde os seus animais domésticos habitavam, isto é, uma bairro de casas de madeira da periferia de Benfica, nas Pedralvas e junto à Estrada Militar, a fim de distribuírem, numa pompa de reis magos, peúgas de lã, cuecas, sandálias que não serviam a ninguém, pagelas de Nossa Senhora de Fátima e outras maravilhas de igual calibre. Os pobres surgiam das suas barracas, alvoraçados e gratos, e as minhas tias preveniam-me logo, enxotando-os com as costas da mão:
- Não se chegue muito que esta gente tem piolhos.
Nessas alturas, e só nessas alturas, era permitido oferecer aos pobres, presente sempre perigoso por correr o risco de ser gasto
(- Esta gente, coitada, não tem noção do dinheiro)
De forma de deletéria e irresponsável. O pobre da minha Carlota, por exemplo, foi proibido de entrar na casa dos meus avós porque, quando ela lhe meteu dez tostões na palma recomendando, maternal, preocupada com a saúde do seu animal doméstico
-Agora veja lá, não gaste tudo em vinho
O atrevido lhe respondeu, malcriadíssimo:
- Não, minha senhora, vou comprar um Alfa-Romeu
Os filhos dos pobres definiam-se por não irem à escola, serem magrinhos e morrerem muito. Ao perguntar as razões destas características insólitas foi-me dito com um encolher de ombros
- O que é que o menino quer, esta gente é assim
E eu entendi que ser pobre, mais do que um destino, era uma espécie de vocação, como ter jeito para jogar bridge ou para tocar piano.
Ao amor dos pobres presidiam duas criaturas do oratório da minha avó, uma em barro e outra em fotografia, que eram o padre Cruz e a Sãozinha, as quais dirigiam a caridade sob um crucifixo de mogno. O padre Cruz era um sujeito chupado, de batina, e a Sãozinha uma jovem cheia de medalhas, com um sorriso alcoviteiro de actriz de cinema das pastilhas elásticas, que me informaram ter oferecido exemplarmente a vida a Deus em troca da saúde dos pais. A actriz bateu a bota, o pai ficou óptimo e, a partir da altura em que revelaram este milagre, tremia de pânico que a minha mãe, espirrando, me ordenasse:
- Ora ofereça lá a vida que estou farta de me assoar e eu fosse direitinho para o cemitério a fim de ela não ter de beber chás de limão.
Na minha ideia o padre Cruz e a Saõzinha eram casados, tanto mais que num boletim que a minha família assinava, chamado «Almanaque da Sãozinha», se narravam, em comunhão de bens, os milagres de ambos que consistiam geralmente em curas de paralíticos e vigésimos premiados, milagres inacreditavelmente acompanhados de odores dulcíssimos a incenso.
Tanto pobre, tanta Sãozinha e tanto cheiro irritavam-me. E creio que foi por essa época que principiei a olhar, com afecto crescente, uma gravura poeirenta atirada para o sótão que mostrava uma jubilosa multidão de pobres em torno da guilhotina onde cortavam a cabeça aos reis.»
[António Lobo Antunes]
2011/07/08
2011/07/07
André Macedo: O pobre, os abutres e a Alemanha
Quando anda de metro, ouve os músicos que andam por lá a tocar? A resposta é não, não ouve - ou raramente ouve - e eu sei que é assim por experiência própria, mas também porque o maior diário de Washington (o Post) levou o virtuoso violinista Joshua Bell a uma das linhas de metro mais concorridas da capital americana e pediu-lhe que tocasse as peças que tocara na semana anterior no Teatro de Boston, onde cobrara cem dólares por bilhete. Como seria às 07.45 no metropolitano de Washington ?
Joshua Bell não só tocou o repertório que tanto sucesso arrebatara em Boston - o melhor Bach - como se exibiu empenhadamente durante uma hora. No entanto, nem o violino, avaliado em 3,5 milhões de dólares, nem a qualidade das notas musicais despertaram o interesse das duas mil pessoas que passaram: apenas seis pararam e só 20 depositaram uma contribuição no estojo do violino. Conclusão: o conteúdo é importante, mas o contexto é essencial.
Vem isto a propósito do pontapé que a Moody's deu à dívida soberana portuguesa: lixo com ela. Porque o fez agora que há um Governo pintado de fresco e, ainda por cima, mais focado no combate ao défice público? A pergunta faz sentido. Se o violinista (Passos Coelho) mudou e está a dar o melhor de si, embora ainda nos primeiros acordes, o que leva a crítica especializada - as agências de rating - a dar uma nota tão medíocre e radical ao País? O que mudou nas últimas semanas?
Vejamos. Politicamente estamos melhor, temos um Governo mais estável e menos exposto aos humores da oposição. Ou seja, o risco político é mais baixo e isso deveria ser levado em conta. No entanto, do ponto de vista económico, como não há milagres, as perspectivas mantêm-se naturalmente negras: o défice público continua esmagador e a trajectória da dívida soberana mantém-se lunar. Segundo o Citigroup, em 2014 atingirá os 135% do PIB. A pergunta é: conseguiremos pagar? Se lhe juntarmos o equivalente a 230% do PIB de dívida privada e o crescimento anémico da última década, a resposta é não - sozinhos não vamos lá.
Acontece que isto já se sabia. Então, o que mudou? Simples: esta semana, a Europa voltou a não ser capaz de apresentar um plano sólido para evitar a falência da Grécia - o plano que meteu na mesa foi chumbado pela S&P, outra agência de rating de garras afiadas. Ora bem, se não há plano para os gregos, não há para os portugueses; daí a reacção da Moody's. Ou seja, Portugal pode fazer o pino, apertar o garrote da despesa e subir os impostos até ao Evereste, mas sem o contexto certo - o suporte financeiro da UE para tapar o buraco a um preço razoável -, a música de Passos são notas perdidas no metro. Ninguém as ouve, e os abutres (agências de rating) levam as moedas que ainda sobram.
[André Macedo, in DN]

